Dra Jaqueline Neves

Amamentação não é método anticoncepcional e você pode engravidar amamentando

Amamentação não é método anticoncepcional e você pode engravidar amamentando

Publicado em:

Escrito por: Adriana Teixeira

Revisado por: Dra. Jaqueline Neves / Ginecologia e Reprodução Humana

Engravidar amamentando ainda é tratado como algo improvável demais para merecer atenção séria. Durante décadas, muitas mulheres ouviram que “enquanto estiver amamentando, não engravida”. 

Só que o corpo humano não funciona baseado em frases prontas. E, na prática, o consultório está cheio de mulheres vivendo a chamada “gravidez em escadinha” — uma nova gestação acontecendo meses após o parto, muitas vezes sem planejamento.


A romantização do pós-parto criou um silêncio perigoso

Existe uma fantasia coletiva de que a mulher que acabou de ter um bebê está automaticamente protegida contra uma nova gravidez.

Mas não está!

Sim, a amamentação exclusiva pode reduzir temporariamente as chances de ovulação. Porém, isso depende de critérios muito específicos.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, para que a amamentação seja eficaz (98% a 99%) ao impedir uma nova gravidez, a mulher deve atender a alguns critérios essenciais.

Após o parte, durante os primeiros 6 meses, é necessário:

• Amamentação exclusiva em livre demanda
• Sem intervalos longos entre mamadas
• Bebê com menos de seis meses
• E ausência completa de menstruação

Fora desse cenário, a proteção cai significativamente.

E o problema é que quase ninguém explica isso com clareza.

Então, a mulher começa a complementar fórmulas, o bebê passa a dormir mais horas seguidas, as mamadas diminuem e o corpo pode voltar a ovular antes mesmo da primeira menstruação aparecer.

Isso precisa ser dito de forma direta: você pode engravidar antes de menstruar novamente.


“Posso engravidar amamentando?” Sim. E muito antes do que imagina

A pergunta “posso engravidar amamentando?” aparece diariamente no consultório. E a resposta é simples: sim, pode.

Porque a ovulação não avisa quando vai voltar.

Muitas mulheres acreditam que a ausência da menstruação significa ausência de fertilidade. Só que a primeira ovulação do pós-parto acontece justamente antes do primeiro sangramento menstrual.

Portanto, quando a menstruação chega, a ovulação já aconteceu.

Além disso, o organismo pós-parto é extremamente variável. Algumas mulheres permanecem meses sem ovular. Outras retomam a fertilidade rapidamente, especialmente quando existe redução da frequência das mamadas.

E é exatamente aí que surgem as gestações não planejadas em sequência.


A “gravidez em escadinha” não é só um detalhe logístico

Existe uma tendência de tratar a gravidez muito próxima do parto quase como uma curiosidade familiar. “Ah, os irmãos têm só 11 meses de diferença.” Como se fosse apenas uma coincidência engraçada.

Mas existe impacto físico, emocional e metabólico nisso.

O corpo ainda está se recuperando de uma gestação. Muitas mulheres ainda enfrentam privação de sono, anemia, adaptação hormonal, recuperação pélvica e exaustão mental quando descobrem uma nova gravidez.

E, sinceramente, parte dessas gestações poderia ser evitada com orientação adequada.

Contudo, informação contraceptiva no pós-parto ainda é absurdamente negligenciada.


Como prevenir gravidez deveria ser conversa obrigatória na maternidade

Existe uma pergunta que deveria acontecer antes da alta hospitalar: “como prevenir gravidez nesse período?”

Mas frequentemente, ela nem aparece.

A mulher recebe orientações sobre amamentação, banho do bebê e cicatrização da cesárea. Porém, muitas vezes, sai sem entender quando a fertilidade pode retornar.

Isso é uma falha assistencial.

Porque a contracepção pós-parto não deveria ser tratada como assunto secundário. Ainda mais considerando que alguns métodos podem ser iniciados logo após o nascimento do bebê, inclusive durante a amamentação.

E não, isso não significa “tirar a naturalidade da maternidade”. Significa oferecer autonomia.


O que eu vejo no consultório

Vejo mulheres exaustas, ainda tentando entender a nova rotina da maternidade, descobrindo uma nova gestação antes mesmo de terem processado a anterior.

E quase sempre existe uma frase repetida:

“Eu achei que amamentando não engravidava.”

Por isso, quando falamos sobre engravidar amamentando, não estamos falando de raridade médica. Estamos falando de algo biologicamente possível e relativamente frequente quando não existe planejamento contraceptivo adequado.

A informação correta não serve para gerar medo. Serve para devolver a escolha.

Porque a maternidade deveria acontecer no tempo da mulher e não no tempo dos mitos que ainda circulam sobre o corpo feminino.


Referências

Artigos Relacionados

5 Doenças que causam infertilidade feminina

5 Doenças que causam infertilidade…

As doenças que causam infertilidade feminina geralmente…

Saiba tudo sobre a injeção intracitoplasmática 

Saiba tudo sobre a injeção…

Você já ouviu falar em injeção intracitoplasmática?…

Inseminação intrauterina: como funciona este tipo de reprodução assistida

Inseminação intrauterina: como funciona este…

A inseminação intrauterina é uma das formas…

Baixe meu e-book sobre Congelamento de Óvulos

E descubra como preservar a saúde reprodutiva e garantir mais tempo para decidir sobre seu projeto de vida