Por Dra. Jaqueline Neves | Ginecologista e especialista em medicina reprodutiva
Existe uma dor que a endometriose ensina cedo. Não é só a cólica que dobra o corpo no primeiro dia de menstruação, mas a dor que aparece no meio da relação sexual. A que instala no intestino como se fosse outra coisa. A que faz uma mulher questionar se o que sente é normal, porque todo mundo diz que cólica é assim mesmo.
Contudo, existe ainda uma outra dor, mais silenciosa, que vem junto com o diagnóstico: o medo de não conseguir engravidar.
Esse medo merece ser levado a sério. E também merece ser colocado no lugar certo, porque endometriose não é sinônimo de infertilidade.

O que a endometriose faz com o corpo
Endometriose é uma doença crônica e inflamatória em que o tecido endometrial cresce fora do útero, nos ovários, nas trompas, no peritônio, no intestino, na bexiga. Esse tecido responde aos hormônios do ciclo menstrual: inchaço, sangramento e inflamação. E com o tempo, cria aderências, cicatrizes, deformidades anatômicas.
Cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva têm endometriose. No Brasil, estima-se que sete milhões sejam afetadas. A maioria demora, em média, sete a dez anos para receber o diagnóstico, e esse atraso tem consequências reais para a fertilidade.
É por isso que procurar um especialista ao primeiro sinal importa. Não no susto, não no pânico, mas com informação.
O guideline mais completo do mundo sobre o tema
A Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia (ESHRE) publicou em 2022 o guia de referência global para diagnóstico e tratamento da endometriose. São mais de cem recomendações construídas a partir das melhores evidências disponíveis em um documento que orienta médicos especialistas no mundo inteiro.
O que ele diz sobre fertilidade é direto: endometriose está associada à subfertilidade, não à infertilidade absoluta. Portanto, a distinção é fundamental.
Subfertilidade significa que pode ser mais difícil e demorar mais. Mas não significa impossível.
Tratamento existe. E funciona.
Existem opções terapêuticas para mulheres que desejam engravidar:
A cirurgia laparoscópica é recomendada em casos selecionados, especialmente quando há dor que não melhora com o tratamento clínico. A remoção das lesões pode melhorar as taxas de gravidez espontânea, e o índice de fertilidade para endometriose.
A reprodução assistida, incluindo inseminação intrauterina e fertilização in vitro, é uma opção eficaz para mulheres com endometriose que não conseguem gestação espontânea. Os protocolos com agonistas e antagonistas de GnRH têm taxas de gravidez comparáveis, e a escolha é individualizada.
O que o guideline reforça com veemência: suprimir a ovulação com hormônios não melhora as chances de engravidar. Mulher que deseja gestação não deve ser mantida em anticoncepcional como estratégia de espera. Esse tempo tem custo.
Por que o especialista faz diferença
Endometriose não é uma doença que se maneja bem com consultas genéricas. Ela exige conhecimento do estadiamento da doença, avaliação da reserva ovariana, mapeamento das lesões por ultrassonografia ou ressonância, e um plano reprodutivo que considere a idade da mulher e seus objetivos.
A mesma doença em duas pacientes pode pedir condutas completamente diferentes. O que funciona para uma pode não ser a melhor rota para a outra.
Por isso, buscar um médico especialista em endometriose e reprodução não é exagero. É o caminho mais inteligente que existe.
Se você tem endometriose e tem medo de não conseguir engravidar: esse medo é válido. Ele merece atenção e não minimização.
Mas medo não é prognóstico. E o diagnóstico de endometriose não é sentença.
Com avaliação cuidadosa, estratégia bem construída e especialista ao lado, a maternidade é um caminho real para a grande maioria das mulheres com essa condição.
Você merece ouvir isso. E merece ter um plano.
Se você quer entender como a endometriose afeta especificamente a sua fertilidade, agende uma consulta. Cada caso tem uma história e cada história tem um caminho.
Referências