Dra Jaqueline Neves

O que acontece com o seu corpo durante a estimulação ovariana para a FIV?

O que acontece com o seu corpo durante a estimulação ovariana para a FIV?

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Escrito por: Adriana Teixeira

Revisado por: Dra. Jaqueline Neves / Ginecologia e Reprodução Humana


A estimulação ovariana talvez seja uma das expressões que mais geram ansiedade em quem está iniciando uma Fertilização In Vitro (FIV). Porém, curiosamente, grande parte desse medo não nasce do que realmente acontece no corpo, mas sim da forma como o processo é contado. 

Muitas mulheres chegam ao consultório imaginando algo agressivo, doloroso e fora de controle. Entretanto, quando entendemos o que está acontecendo biologicamente, a experiência costuma parecer muito menos assustadora do que os mitos que circulam na internet.


O medo das injeções costuma ser maior do que as injeções

Existe uma imagem quase cinematográfica da FIV que não corresponde à realidade da maioria das pacientes.

Frequentemente, a mulher imagina aplicações dolorosas, alterações drásticas de humor e um corpo completamente diferente em poucos dias. No entanto, essa narrativa raramente encontra respaldo na prática clínica.

De acordo com informações da Advanced Fertility Center of Chicago, os medicamentos utilizados na estimulação ovariana para FIV são administrados por meio de aplicações subcutâneas, geralmente na região abdominal, e costumam ser bem tolerados pela maioria das pacientes.

Isso não significa que não existam efeitos físicos. Eles existem. Porém, na maioria das vezes, são mais semelhantes à sensação de inchaço do período pré-menstrual do que ao cenário assustador que tantas mulheres imaginam antes de começar.

A antecipação do sofrimento costuma ser mais intensa do que o sofrimento em si.


O que os hormônios realmente estão fazendo

Todos os meses, seu organismo inicia o desenvolvimento de diversos folículos nos ovários.

Naturalmente, apenas um deles costuma se tornar dominante e liberar um óvulo durante a ovulação. Os demais interrompem o desenvolvimento ao longo do processo.

Segundo as diretrizes da European Society of Human Reproduction and Embryology (ESHRE), o objetivo da estimulação ovariana é promover o crescimento simultâneo de múltiplos folículos, aumentando o número de óvulos disponíveis para os procedimentos de reprodução assistida.

Dessa forma, é possível obter um número maior de óvulos para aumentar as chances de sucesso do tratamento.

O ovário continua sendo o mesmo. O que muda é a quantidade de folículos que recebem estímulo para completar o desenvolvimento.


O corpo envia sinais e eles são esperados

Conforme os folículos crescem, os ovários aumentam de tamanho temporariamente.

Consequentemente, algumas mulheres percebem sensação de peso na pelve, roupas mais apertadas na cintura e certo desconforto abdominal.

Além disso, pode ocorrer retenção de líquidos discreta e sensação de estufamento.

Esses sinais costumam gerar preocupação desnecessária porque muitas pacientes acreditam que algo está errado. Na verdade, na maioria das situações, eles representam exatamente o que esperamos observar durante o tratamento.

Os exames de ultrassom seriados existem justamente para acompanhar esse crescimento e garantir que tudo esteja acontecendo dentro dos parâmetros seguros.

Portanto, não se trata de perder o controle do corpo. Trata-se de monitorar cuidadosamente uma resposta fisiológica planejada.


Nem toda emoção diferente é culpa dos hormônios

Existe outro mito que merece ser questionado.

Muitas mulheres recebem a mensagem de que ficarão emocionalmente irreconhecíveis durante a FIV.

A ciência não sustenta essa simplificação.

Embora oscilações hormonais possam influenciar o humor em algumas pacientes, frequentemente o impacto emocional está mais relacionado à expectativa do tratamento, ao desejo de engravidar e ao estresse natural de uma etapa importante da vida.

Além disso, estudos mostram que fatores psicológicos e contextuais desempenham um papel relevante na experiência emocional da reprodução assistida.

Em outras palavras, nem toda lágrima, irritação ou ansiedade deve ser atribuída automaticamente aos medicamentos.

Seria simplista demais reduzir uma experiência humana complexa apenas aos hormônios.


O que vejo acontecer todos os dias

Quando uma paciente inicia a estimulação ovariana para FIV, geralmente ela chega carregando uma lista de receios.

Tem medo das agulhas.

Tem medo dos hormônios.

Ela tem medo de sentir dor.

Tem medo de não reconhecer o próprio corpo.

Mas algumas semanas depois, muitas dessas mulheres me dizem praticamente a mesma frase:

“Eu achei que seria muito pior.”  “Foi mais tranquilo do que imaginava.”

Mas isso não significa que o tratamento seja trivial. Significa apenas que informação de qualidade costuma ser mais poderosa do que o medo.

Quando compreendemos o que está acontecendo dentro do organismo, cada aplicação passa a ter um propósito claro. Cada ultrassom ganha sentido. E cada etapa deixa de parecer uma ameaça para se tornar parte de um plano cuidadosamente construído.


A Fertilização In Vitro não exige que você enfrente o processo sem dúvidas ou sem receios. Porém, exige algo fundamental: que as decisões sejam tomadas com base em evidências e não em histórias assustadoras compartilhadas sem contexto.

Se você está considerando um tratamento reprodutivo e deseja entender como a estimulação ovariana funciona no seu caso específico, converse com uma especialista. 

A informação adequada não elimina todos os medos, mas certamente impede que eles ocupem mais espaço do que deveriam.


Referências

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