Escrito por: Adriana Teixeira
Revisado por: Dra. Jaqueline Neves / Ginecologia e Reprodução Humana
Se você foi diagnosticada com síndrome dos ovários policísticos, talvez tenha aprendido a conviver com um nome que nunca pareceu explicar direito o que você sentia. Ciclos irregulares, acne, ganho de peso, queda de cabelo, dificuldade de engravidar e um diagnóstico que colocava tudo isso na conta de “cistos nos ovários”.
Mas o problema é que, na maioria dos casos, os cistos não existem. Além disso, a condição vai muito além dos ovários.
A ciência finalmente corrigiu isso.
O que mudou e por que agora
Em 12 de maio de 2026, um consenso internacional publicado na revista The Lancet e apresentado no Congresso Europeu de Endocrinologia, em Praga, tornou oficial o que especialistas já discutiam há anos: a Síndrome dos Ovários Policísticos passa a se chamar oficialmente Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina — SOMP.
Mas esse não foi um processo rápido nem superficial. A mudança foi construída após um amplo processo internacional de consenso que envolveu mais de 14.360 participantes entre pacientes, profissionais de saúde e pesquisadores, além da colaboração de 56 organizações médicas e científicas de diferentes países. O Brasil integrou o processo por meio da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).
Quatorze anos de pesquisa. Vinte e dois mil respostas a questionários de pacientes. Um novo nome.
Por que o nome antigo estava errado
O termo “ovários policísticos” levou por décadas à ideia de que a doença estaria relacionada apenas à presença de cistos nos ovários. No entanto, muitas mulheres com a síndrome nem sequer apresentam cistos ovarianos anormais.
O que o ultrassom detecta são múltiplos pequenos folículos com desenvolvimento interrompido. Não são cistos clínicos. E esse detalhe, aparentemente técnico, criou décadas de confusão para pacientes e, em alguns casos, para profissionais de saúde.
Mais importante: o nome antigo apagava o que a condição realmente é.
A nova terminologia reflete a natureza da condição, que envolve a participação de diversos sistemas endócrinos. A síndrome caracteriza-se por alterações em múltiplos hormônios: insulina, hormônio luteinizante (LH), hormônio antimülleriano (AMH) e androgênios. A resistência à insulina afeta cerca de 85% das pacientes, inclusive 75% das mulheres magras.
Isso não é uma doença de ovário. É uma condição hormonal, metabólica e sistêmica. O nome finalmente diz isso.
SOMP e fertilidade: o que você precisa saber
A SOMP é uma das causas mais comuns de infertilidade feminina no mundo, e ela age de uma forma específica: desorganizando a ovulação.
Sem ovulação regular e previsível, a chance de gravidez espontânea cai de forma significativa. Muitas mulheres menstruam e acreditam que estão ovulando normalmente. Nem sempre é o caso.
Mas, e este mas importa muito, SOMP não é infertilidade definitiva.
Com avaliação especializada, é possível identificar se e quando a mulher está ovulando, qual é o perfil hormonal e metabólico, e qual estratégia faz mais sentido para o seu caso. Em muitas pacientes, a indução de ovulação com medicamentos como letrozol ou citrato de clomifeno já é suficiente para alcançar a gestação. Em outros casos, a reprodução assistida é o caminho mais eficiente.
O que atrasa o resultado não é a condição em si. É a falta de um plano.
O que muda na prática com o novo nome
Até o momento, a mudança da nomenclatura não modifica a propedêutica diagnóstica da condição, mas reforça a importância de uma abordagem mais holística e multidimensional no manejo terapêutico da síndrome.
Na prática, isso significa que tratar SOMP apenas com anticoncepcional para regularizar o ciclo, sem avaliar a resistência insulínica, o perfil metabólico, a saúde cardiovascular e o projeto reprodutivo da mulher é uma abordagem incompleta.
A nova nomenclatura convida médicos e pacientes a olharem para essa condição com a seriedade que ela sempre mereceu.
Se você tem SOMP e quer engravidar
A primeira coisa que precisa acontecer é uma avaliação completa, não apenas do ciclo menstrual, mas do contexto hormonal e metabólico inteiro. A SOMP responde bem ao tratamento quando ele é individualizado. As taxas de gestação com manejo adequado são muito favoráveis.
Você não precisa aceitar que vai ser difícil como resposta final, pois essa não é uma frase clínica. É uma frase que encerra conversas que deveriam estar apenas começando.
Se você foi diagnosticada com SOP, hoje SOMP, e tem dúvidas sobre como isso afeta sua fertilidade, agende uma consulta. Essa conversa pode mudar o seu caminho.
Referências
- Teede HJ et al. Polyendocrine metabolic ovarian syndrome, the new name for polycystic ovary syndrome: a multistep global consensus process. The Lancet. 2026.
- Teede HJ et al. Recommendations from the 2023 International Evidence-based Guideline for the Assessment and Management of Polycystic Ovary Syndrome. Fertil Steril. 2023.