Dra Jaqueline Neves

'Quero ser mãe': o que fazer quando o desejo de maternidade finalmente desperta?

‘Quero ser mãe’: o que fazer quando o desejo de maternidade finalmente desperta?

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Por Dra. Jaqueline Neves | Ginecologista e especialista em medicina reprodutiva

Quero ser mãe! Esta costuma ser a frase que muda silenciosamente a relação da mulher com o próprio tempo. 

Justamente por isso, não deveria inaugurar uma fase de tentativas aleatórias, mas sim o início de um planejamento clínico responsável.

Afinal, desejar engravidar sem conhecer o próprio cenário reprodutivo é transformar um projeto de vida em aposta biológica.


O entusiasmo é legítimo. A desinformação, não.

A cultura vende a gravidez como um evento espontâneo, quase automático. Crescemos ouvindo que basta “relaxar” e “deixar acontecer”. 

No entanto, a medicina reprodutiva mostra uma realidade menos poética e muito mais responsável.

A American College of Obstetricians and Gynecologists e a American Society for Reproductive Medicine defendem que o cuidado pré-concepcional deve começar antes mesmo da primeira tentativa, justamente para reduzir riscos maternos, fetais e evitar meses ou anos de frustração evitável.

Em outras palavras: se você está dizendo quero ser mãe, o seu corpo precisa entrar nessa conversa antes que a ansiedade entre.

E isso muda tudo.


O primeiro passo não é comprar o teste de ovulação. É investigar o terreno

Existe uma fantasia de que a fertilidade feminina é um botão de liga e desliga. Não é.

Você pode menstruar todos os meses e ainda assim ter questões ovulatórias. 

Pode estar aparentemente saudável e carregar:

  • alterações tubárias
  • endometriose silenciosa
  • distúrbios hormonais
  • deficiência de vitaminas
  • disfunções tireoidianas
  • ou até baixa reserva ovariana sem qualquer sintoma evidente.

Por isso, a mulher precisa começar por uma consulta estratégica e não por aplicativos de calendário ao se decidir: quero ser mãe!

Nessa fase, alguns exames costumam ser fundamentais:

  • Ultrassonografia transvaginal com contagem de folículos antrais
  • Dosagens hormonais (FSH, LH, estradiol, progesterona, prolactina, TSH, AMH)
  • Sorologias e rastreio infeccioso
  • Avaliação de vitamina D, glicemia e perfil metabólico
  • Revisão vacinal
  • Em alguns casos, histerossalpingografia para avaliar trompas

Além disso, o fator masculino também deve entrar cedo na investigação. Porém, isso é ignorado com frequência constrangedora. 

A ASRM reforça que a avaliação da fertilidade não é completa sem análise paralela do sêmen quando há planejamento reprodutivo ou dificuldade de concepção.

Portanto, insistir em colocar toda a responsabilidade no útero da mulher é um atraso técnico e cultural.


Desejo reprodutivo sem cronograma é só ansiedade bem vestida

Aqui está a parte que pouca gente gosta de ouvir: desejar não organiza tempo biológico.

A fertilidade feminina sofre declínio progressivo com a idade e esse impacto se torna mais expressivo após os 35 anos. Mas isso não significa pânico. Significa lucidez. 

A própria Centers for Disease Control and Prevention e o American College of Obstetricians and Gynecologists reforçam que a idade continua sendo um dos principais determinantes de fecundidade natural.

Portanto, quando a paciente chega ao consultório dizendo: quero ser mãe, minha pergunta não é apenas “há quanto tempo você tenta?”.

Minha pergunta é: qual é o seu horizonte?

  • Você quer engravidar este ano? 
  • Em dois anos? 
  • Pretende mais de um filho? 
  • Tem parceiro? 
  • Tem diagnóstico ginecológico prévio? 
  • Usa alguma medicação contínua? 
  • Sua rotina favorece uma gestação saudável?

Porque a maternidade segura não é fruto de impulso emocional. É fruto de decisão acompanhada de estratégia.


E aqui entra a maturidade clínica que as redes sociais não entregam

Há mulheres que, após avaliação, podem simplesmente iniciar as tentativas com tranquilidade e ajuste de hábitos. 

Outras descobrem que precisam tratar:

  • endometriose
  • SOP
  • resistência insulínica
  • tireoide
  • anemia
  • infecções
  • ou corrigir deficiências nutricionais antes.

Temos ainda quem perceba que o melhor caminho talvez seja:

  • preservar fertilidade
  • acelerar tentativas
  • ou até discutir reprodução assistida de maneira precoce.

Isso não é pessimismo, mas sim medicina baseada em dados.

A ACOG (Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas) é objetiva ao afirmar que mulheres com fatores de risco conhecidos não devem esperar um ano tentando –  a investigação deve ser imediata.

Esperar sem critério não é paciência. Muitas vezes, é perda de oportunidade de diagnóstico.


O que eu vejo no consultório

Mulheres bem-sucedidas, mas sem planejamento reprodutivo:

Vejo mulheres extremamente competentes em todas as áreas da vida e absolutamente desorganizadas quando o assunto é fertilidade.

Isso ocorre não por incapacidade, mas porque ninguém ensinou que planejamento reprodutivo é parte da saúde feminina.

Quando o desejo de ser mãe chega acompanhado de culpa:

Elas chegam dizendo “quero ser mãe” como quem faz uma confissão tardia, quase culpada e geralmente já carregando duas bagagens: pressa e desinformação.

O primeiro passo no consultório:

A primeira coisa que faço é tirar o peso moral dessa decisão.

Maternidade não precisa ser um salto no escuro. Precisa ser uma construção consciente.

Informação reduz sofrimento:

E, sinceramente, quanto antes a mulher troca achismo por informação, menor a chance de transformar um sonho legítimo em uma trajetória emocionalmente exaustiva.

Desejar um filho é humano, mas planejar essa chegada com inteligência é o que realmente protege esse desejo.


Se o desejo de maternidade despertou e você quer entender seus próximos passos com clareza, segurança e individualização, agende uma consulta

Fertilidade não deve ser conduzida por suposição e sim por estratégia clínica.


Referências
• American College of Obstetricians and Gynecologists. Prepregnancy Counseling. Committee Opinion No. 762. 2019.
• Practice Committee of the American Society for Reproductive Medicine. Prepregnancy counseling. Fertility and Sterility. 2019.

• Practice Committee of the American Urological Association and American Society for Reproductive Medicine. Diagnosis and treatment of infertility in men: AUA/ASRM guideline part I. Fertility and Sterility. 2021.
• Committee Opinion No. 781 (reafirmado em 2023), intitulado “Infertility Workup for the Women’s Health Specialist”.
• Centers for Disease Control and Prevention. Infertility FAQs. 2024 update.

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